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Estratégia de negócio pra serviços

Estratégia de Negócio para Empresa de Serviço

Priscila e Antônio Napoli · 76 min

Em uma frase: em empresa de serviço o dono se mistura com a empresa, então a estratégia começa por saber que vida você quer viver, se define escolhendo a quem você serve, e se sustenta construindo confiança (credibilidade, disponibilidade, intimidade e preço justo) e formando pessoas.

Por que importa: quase todo gestor de tráfego, agência ou prestador de serviço opera no automático, no instinto, vendendo e entregando sem parar. Isso trava o crescimento e prende o dono como refém da própria operação. Esta palestra dá a sequência que falta: primeiro clareza pessoal, depois escolha de cliente, depois confiança e time. É um "jogo de gente grande" para quem já é CEO sem ter percebido.


Ponto de partida: você já é CEO (por acaso)

Empreendedor solo é CEO, dono, operador e vendedor ao mesmo tempo. O problema é que a maioria virou CEO por acaso, guiada só pelo instinto ("olho a situação e sei o que fazer").

O quê: existe um degrau entre "CEO por acaso" (instinto) e "CEO com pensamento estratégico" (intenção). Instinto tira você do zero, mas não te leva ao próximo nível.

Por quê: o instinto trabalha só dentro do que você já conhece. Estratégia de verdade exige enxergar o que você não conhece.

Como aplicar: pare de esperar o instinto resolver tudo e trate estratégia como algo que se estuda e se decide de forma deliberada. Passar de acaso para intenção foi o que a própria Priscila descreveu como sua virada: autodidatismo, livros, cursos, MBAs e, principalmente, um bom mentor.

Os três círculos da perspectiva estratégica

Toda decisão estratégica vive dentro de três círculos:

1. O que eu conheço. As estratégias que já domino.

2. O que eu sei que não conheço. As lacunas que percebo.

3. O que eu nem sei que não conheço. O ponto cego total.

Por que importa: o terceiro círculo é onde mora o maior risco e a maior oportunidade, e você não chega nele sozinho. Por isso encontrar um bom mentor é imprescindível, alguém que já passou pelo que você ainda não passou, preferencialmente fora da sua bolha (Priscila buscou fora do mercado digital), que faça as perguntas certas e mostre o que você ainda não vê.


Passo 1 da estratégia: clareza pessoal (o exercício do funeral)

Antes de pensar na empresa, você tem que saber o que quer da própria vida. Em empresa de serviço vida pessoal e vida profissional se misturam, então uma decide a outra.

O quê, o exercício:

  • Marque a data em que você vai morrer (todo mundo vai). Calcule quantos anos úteis restam (Napoli, aos 60, calcula uns 30 a 40).
  • Imagine o último dia da sua vida. As pessoas relevantes passam ao lado do caixão dizendo coisas sobre você. O que você gostaria de ouvir?
  • Responda então às duas perguntas que destravam tudo: "O que eu quero para a minha vida?" e "Qual o papel da minha empresa nessa vida?"

Por que importa: quem não sabe o que quer para si mesmo não sabe o que quer para a empresa. A empresa é só um pedacinho da vida, e sem o desenho da vida inteira você não tem norte para desenhar a estratégia.

A história que ilustra: Napoli fez o exercício e "ouviu" o filho dizer que ele foi um workaholic com quem quase não conviveu, e ouviu que morreu "morando de aluguel, inteligente mas sem gerar valor para si mesmo". Do incômodo veio a coragem de desenhar a vida que queria de fato. Ele se divorciou, ganhou a guarda dos filhos e saiu de um emprego bem pago para ganhar um terço empreendendo. Todo mundo achou que ele estava maluco; ele só tinha feito uma reflexão honesta de que não estava construindo a vida que queria.

Como aplicar:

  • Faça o exercício de olhos fechados, com honestidade, mesmo que assuste (é normal querer desistir no meio).
  • Repita com frequência. A resposta muda com a idade e a energia (25 anos é diferente de 60). No mínimo uma vez por ano, respire e pense no longo prazo, não no "o que eu quero amanhã".
  • Materialize: Napoli anda com um papelzinho amarelo na carteira com o que quer ouvir no funeral de um lado, e do outro os piores dias da vida que o motivam.
Batendo cabeça a gente vai, mas em direção ao norte que construiu. Sem esse norte desenhado, você não chega.

O que é estratégia: escolher o jogo que você vai jogar

A metáfora: sua empresa é um jogador dentro de um jogo, o mercado. No jogo há clientes e competidores, e o juiz é o cliente: é ele quem decide se você ganhou (conquistou) ou perdeu (não conquistou).

A definição: estratégia é escolher o jogo que você vai jogar. E você só sabe qual jogo é esse quando responde à primeira grande pergunta:

A quem eu sirvo?

Escolher a quem você serve determina todo o resto: produto, comunicação, canal, processo, preço. Porque é esse cliente que vai ser o juiz.

O exemplo do paracetamol (mesma coisa, jogos opostos): duas farmacêuticas brasileiras vendem o mesmo paracetamol genérico.

EmpresaA quem serveComo joga
CimedMulheres de 25 a 40 anos, mães, sem plano de saúde, para quem saúde é questão centralProduz conteúdo que ensina a cuidar da família gastando menos, sempre com o fundo amarelo (cor da marca). Não vende diretamente, acolhe. Na farmácia a cliente pede "o da caixinha amarela". Jogo de marketing, comunicação e conteúdo para pessoa física.
Prati-Donaduzzi (Toledo, PR)Pequenos farmacêuticos do interior, que atendem classe C e DAjuda o farmacêutico a vender remédio particionado/unitário (quem não tem dinheiro para a cartela de 12), com rastreabilidade legal. Capta o dono com uma viagem de graça para conhecer a fábrica (perto de Foz do Iguaçu, com passeio no Paraguai); ele se sente devedor e compra os kits. Jogo B2B, de relação próxima com o dono.

A lição: vender o mesmo produto não define o jogo. A quem você escolhe servir é o que define. Uma teve que virar máquina de conteúdo, a outra teve que atuar colado no dono do negócio. Tudo o mais decorreu dessa escolha.

A pergunta-teste: *"Se você fechar o seu negócio hoje, quem vai chorar a sua falta?"* Se você não responde de imediato, você não sabe a quem serve. E quem não sabe a quem serve não tem estratégia, porque não sabe que jogo está jogando. Não é fácil, exige meses de reflexão. Napoli responde a dele em uma frase: "sirvo pessoas como a Priscila e o Pedro, que querem sempre chegar em primeiro lugar", logo tudo o que ele oferece (conteúdo, metodologia, tecnologia) existe para levar ou manter alguém no primeiro lugar.


A nuance da empresa de serviço: você vende segurança

Serviço não é tangível. Você não entrega uma coisa que o cliente pega, olha e diz "gostei". Você vende uma promessa, e a entrega só acontece depois que o trabalho é feito.

Consequência: o que o cliente sente ao comprar é segurança. Em menos de um segundo ele bate o olho e julga: "esse aqui parece que vai entregar" ou "não parece". Por isso, em serviço, como você se apresenta é parte do produto.

A história: Napoli começou se vestindo como professor universitário. Entrava na sala do presidente da Coca-Cola ou da Petrobras e o executivo pensava "quero ser amigo dele, mas esse cara não tem sangue nos olhos para entregar o que eu preciso". Ele teve que reconstruir a própria imagem para transmitir a confiança de que entregaria, mesmo já sendo capaz de entregar antes. A capacidade existia; a imagem é que não passava.

A regra: em empresa de serviço o dono se mistura com a empresa. Você tem que investir em si mesmo e construir quem você quer ser, porque é olhando para você que o cliente decide comprar.


A fórmula da confiança (livro "O Conselheiro Confiável", David Maister)

Referência central da palestra, indicada como livro de cabeceira para quem presta serviço. A confiança que o cliente deposita em você é uma equação com quatro variáveis. Três aumentam a confiança, uma diminui.

VariávelO que éEfeito
CredibilidadeSinais objetivos de que você é bom: jeito de se vestir e se comportar, diploma, currículo, histórico, reputaçãoAumenta
DisponibilidadeEstar lá quando o cliente precisa, responder rápidoAumenta
IntimidadeConhecer o cliente por dentro, os maus hábitos, a situação real ("você já está na minha cozinha")Aumenta
Orientação a si mesmoEstar voltado para a própria vantagem, cobrar preço injusto, tirar proveitoDiminui

A ilustração do médico: você busca um médico para o filho doente. Primeiro procura sinais de credibilidade (parece médico, tem diploma na parede, roupa, currículo). Depois testa a disponibilidade (ele cancela a pescaria para atender, em vez de empurrar o residente). Cria intimidade ao acompanhar a família de perto. No fim, cobra um preço justo. Quando as três primeiras estão altas e não há orientação a si mesmo, a confiança explode.

O preço justo faz parte da confiança

O preço é onde a orientação a si mesmo aparece. E o justo não é nem alto nem baixo:

  • Alto demais (o médico cobrando 180 mil pelo que vale 40): abuso, destrói a confiança.
  • Custo ou de graça (cobrar só o custo, ou nada): também é injusto e ofende. O cliente não quer caridade, quer pagar o justo. Preço de custo não paga funcionário, não paga você e não deixa lucro para reinvestir.
  • Justo: o valor que corresponde ao que foi entregue. "Não está caro: paga meus funcionários, paga a mim e ainda dá lucro para continuar investindo no negócio."

A postura que o livro ensina: dar/oferecer primeiro, cuidar primeiro, e cobrar o preço justo depois. Aprender a se colocar e cobrar o que vale.

Formação de preço na prática

  • No começo, tudo bem chutar ("cobrei 1.500, quem sabe"). É o que coloca você em movimento, não trave na frente da planilha.
  • Mas chega a hora de profissionalizar: saber quanto custa a sua hora, fazer pesquisa de mercado e saber a margem que você busca. Sem isso, é impossível crescer.

O dilema da disponibilidade: entregar x vender x escalar

O maior desafio do prestador é manter credibilidade e disponibilidade tendo só 24 horas por dia. Ninguém quer construir uma empresa para virar refém e escravo dela.

O dilema central: *"Quando você está entregando, não está vendendo. Quando está vendendo, não está entregando."* Carregar o piano ou vender o piano. Para sair disso, você precisa de pessoas, estrutura e equipe, para poder tirar férias, escalar e não ficar limitado ao número de clientes que atende sozinho.

A verdade dura: metade do tempo do empreendedor deveria ser dedicado a escolher e apostar em pessoas. E somos ruins nisso, porque nunca fomos treinados para isso.

O único laboratório de pessoas é você mesmo

Como ficar bom em gente? O melhor (e único) laboratório é você.

  • "Você não dá o que você não tem." Se você é tosco consigo mesmo, será tosco com os outros.
  • Terapia, cuidar da própria alma, trocar com amigos, autoconsciência. Quanto mais sensível você é em relação a si, mais sensível consegue ser com clientes e funcionários.
  • "Se o dono é tosco, ele só contrata gente tosca que faz tosquice." O autodesenvolvimento é pré-requisito para ser bom empregador e escolher bem.

Todo mundo tem que saber vender (inclusive o técnico)

Ser bom tecnicamente não basta. Sem saber se relacionar e vender, a empresa não cresce.

  • Vender não é empurrar. É perguntar a dor do cliente e dizer com honestidade: "essa dor eu resolvo; essa outra não, talvez outro profissional resolva melhor". Ensinar o cliente a comprar é vender.
  • Vender é mostrar a qualidade do que você entrega e ajudar o outro a resolver o problema. Todo mundo vende desde o estágio (o estagiário vende o próprio trabalho ao chefe).
  • Só técnico "fica sozinho no deserto". Napoli passou 20 anos "escondido na caverna", comprado por poucos clientes que não contavam para ninguém que ele existia. Só cresceu quando saiu e desenvolveu a capacidade de mostrar como podia ajudar.
O topo da pirâmide não é técnica. O topo da pirâmide é cuidar de gente. Quanto mais você cresce, menos você executa e mais você contrata, educa e forma pessoas.

Construir confiança progressiva no time (a contribuição da Priscila)

O erro clássico do prestador: ir até o limite fazendo tudo sozinho, "lavar a louça do cliente", não aguentar mais, contratar um monte de gente de uma vez e sumir. Essa ruptura brusca é o que gera estranheza no cliente.

O certo é inserir o time aos poucos, com paciência e sabedoria:

  • Não sequestre a reunião. Deixe as pessoas do time falarem; faça intervenções pontuais, específicas, estratégicas.
  • Elogie o time em público, na frente do cliente: "foi o fulano que passou a noite montando este relatório". Isso "vende" o time e transfere confiança gradualmente.
  • Com o tempo o cliente passa a preferir falar com a pessoa do time do que com você, e aí você se desvencilha.

O caso do "cala a boca": duas funcionárias competentes pediram a Napoli que ficasse quieto nas reuniões, porque com a experiência e os cabelos brancos dele elas não conseguiam "existir" na reunião. Ele passou a só entrar em emergência, e o time cresceu bastante a partir daí.

Como formar alguém: a analogia de aprender a dirigir

O aprendizado de qualquer pessoa passa por quatro fases:

1. O professor dirige, você observa.

2. Você dirige, o professor senta do lado e deixa você errar (morrer o carro, ralar).

3. Você dirige sozinho, o professor assiste de fora.

4. Você só sabe que realmente aprendeu quando tem que ensinar outra pessoa a dirigir.

A aplicação: a fase final do aprendizado é ensinar. Quando um funcionário chega ao ponto de conseguir ensinar outro, promova-o, tire-o da tarefa e passe a próxima. Não coloque "corrente no pé" do bom técnico, prendendo-o na função só porque ele é bom nela. Liberte-o para formar os outros.


O desconforto diário como motor

A tese: para se desenvolver você tem que sair da zona de conforto e fazer o que ainda não sabe fazer. E a primeira coisa que aparece é a vergonha.

A história: Napoli estava obeso, foi para a academia e passou vergonha, era o último da fila, o "mané". É exatamente esse desconforto público que desenvolve.

A regra: o desconforto na carreira tem que ser diário, porque significa que você está se desafiando a aprender. Quem vira "rei da cocada", que já sabe tudo, ferrou a carreira, porque parou de ter provocação e desconforto para evoluir, enquanto o mundo, o algoritmo e as regras mudam toda hora. Crie propositalmente desconforto para você e para o seu time, para que todos sejam obrigados a encarar desafios e crescer.


Se destacar na competição e sobreviver à crise

O problema: quem só vende e entrega não estuda, não aprende nada novo e só faz mais do mesmo. Quem se destaca fica "duas casinhas à frente" da concorrência, e só fica quem se dá esse espaço.

A conta do tempo: o ano tem cerca de 252 dias úteis, uns 230 tirando feriados. Reserve algumas horas por semana ou por mês para estudar, inovar e conhecer gente e negócios diferentes. O concorrente já está entregando; você tem que entregar e se desenvolver. Só saindo da caverna você descobre o que poderia estar fazendo e nem imaginava.

Sobre crise e "o Brasil": Napoli, aos 60, viveu todas as hiperinflações e segue de pé. Quando a empresa é pequena ou média, as questões de mercado assustam, mas dá para focar no próprio negócio e passar quase ileso. Sempre tem gente ganhando dinheiro e performando bem em qualquer momento.

  • Não perca tempo com fantasias, política e brigas. Gaste o tempo se desenvolvendo e gerando valor.
  • A cada quatro anos muda o governo e vem algum tipo de crise; um dia virá algo como uma nova pandemia. Estar preparado é fazer o dia a dia certo: gastar o mínimo de tempo inovando e boa parte melhorando quem você é como pessoa, para tratar melhor o cliente.

O caso da competição desleal (IP x Unilever): uma empresa (IP) teve que fechar fábrica após uma denúncia. A motivação não foi política: a concorrente (Unilever) monitora todos os concorrentes o tempo todo, descobriu uma contaminação no produto do rival e pressionou a Anvisa até agir. Lição: na competição não existe só "quem é melhor e quem é pior", existem jogos de força e atitude. Uma empresa "comeu mosca", a outra não. Fique atento à sua própria entrega e ao seu cliente.

O que o cliente realmente quer: não é o melhor técnico, é alguém em quem ele pode confiar (a equação: disponível, entende as loucuras dele, cobra preço justo). Você não vende só técnica nem só resultado, vende relacionamento e cuidado com pessoas. Napoli admite não ser, de longe, o melhor consultor de estratégia, mas mantém relações de 25 anos porque é comprometido com o sucesso do cliente (um deles, Rogério Nelson, comprou 15 projetos e virou sócio).


"O mercado não quebra ninguém. Quem quebra você é você."

A metáfora do passarinho: o pássaro que investiu em fortalecer as próprias asas não teme a árvore quebrar, ele bate asas e acha outra. Se você desenvolve suas habilidades e competências para servir, o sucesso vem independente das condições externas.

A metáfora da pizza: o mercado é uma pizza. Na crise a pizza diminui, mas continua existindo. Sobrevive quem fica com um pedaço, mesmo que pequeno. Morre o mais fraco, quem investe menos, quem faz o serviço "nas coxas", quem não investe em si nem se desenvolve. Entre altos e baixos, é a consistência que vence.


Ambiente vence força de vontade

A pesquisa (dez/2024): uma pesquisadora britânica acompanhou 2.400 pessoas que fizeram listas de resolução de fim de ano. A hipótese era que a força de vontade decidiria quem cumpre. O resultado: nas coisas relevantes, a força de vontade era a última variável. A primeira era o ambiente.

O exemplo: emagrecer numa casa com a geladeira cheia de doce é quase impossível. Numa casa cheia de veganos que odeiam açúcar, você emagrece "na marra". Não é a sua força de vontade, é o ambiente que força a mudança.

A aplicação:

  • Para mudar, escolha estar do lado das pessoas que já são o que você quer se tornar. Napoli passou a conviver com quem cuidava do corpo, passando vergonha, e mudou em dois anos, mais rápido do que sozinho com livro de autoajuda.
  • Quando achar uma tribo que fala ao seu coração e te ajuda de verdade, arrume um jeito de se aproximar e conviver. O contexto contamina e viabiliza grandes mudanças.
  • Fique perto de gente que você admira, mais inteligente e mais bem-sucedida que você, não para se comparar, mas para se inspirar e se motivar a ser outra pessoa.

Perguntas da plateia

O maior erro (e o que aprendeu)

Napoli quebrou quatro vezes. O maior erro: esperar reconhecimento de fora para dentro, esperar que o mercado dissesse que ele era bom, sem olhar nem cuidar de si mesmo.

  • O tapa na cara (livro "Tudo Sobre o Amor", Bell Hooks): o livro manda escrever a lista do que você quer do seu companheiro (ele fez 14 itens); na página seguinte pergunta: "e você dá isso a você mesmo?". Tudo o que ele exigia dos outros, não dava para si.
  • Até os 51 anos achava que o reconhecimento vinha de fora. Aprendeu que não dá para exigir dos outros aquilo que você não dá para si mesmo.
  • Outro erro: achar-se velho. "Dentro da gente não tem idade." Os desejos são os mesmos aos 12, 30, 60, 90. Idade é relativa; achar que o tempo acabou é um erro grande.

Que habilidade o empreendedor precisa desenvolver

  • Ninguém trabalha só por dinheiro. Motivações profundas movem mais: quem passou fome luta por fartura, quem viveu injustiça luta por justiça. Uma "boa vida" costuma ser o oposto do pior dia da sua vida.
  • O empreendedor quer mudar a realidade (o mercado, o produto, a forma de consumir). O CLT cumpre uma função dentro de uma realidade mudada por outros; o empreendedor quer algo maior que o sucesso financeiro, embora o financeiro seja necessário para continuar.
  • Persistência no desconforto: *"o amador desiste do desconforto; o empreendedor persiste mesmo no desconforto."* A vida vai ser dura; se você desistir, acabou. Sam Walton (Walmart), segundo Napoli, quebrou 8 vezes e, na última, com ninguém querendo emprestar, acertou o modelo e criou um império.
  • Para não desistir, tenha propósito (liberdade financeira, prosperidade, mudar o mercado, criar algo novo), não só grana. O "o que eu quero ouvir no dia do meu funeral" é a gasolina que não acaba. Exemplo: Pedro Sobral é generoso e ensina tráfego pago porque passou muita necessidade e a pobreza o incomoda; a Priscila o ensinou a também prosperar.

Propósito com os pés no chão (complemento da Priscila)

Entender o "porquê" é combustível, mas tem uma sacada que acelera o crescimento: fazer da realidade a sua vida, sem romantizar.

  • Não espere o mundo se moldar ao seu sonho. Seja inteligente para construir a realidade que está na sua cabeça sem ignorar a realidade: ler dados rápido, mudar o plano de ação rápido. Não é o romantismo nem estar apaixonado pela ideia que faz você chegar rápido.
  • O exercício dos dois atletas: só sonhar com o pódio olímpico atrapalha atingi-lo. O atleta que vence sonha com o pódio e, quilômetro a quilômetro da maratona, é honesto sobre onde vai falhar, onde é fraco e onde vai precisar de ajuda. Honestidade intelectual sobre as próprias fraquezas é o que faz chegar lá.

Onde encontrar quem ajuda no planejamento estratégico

  • Separe estratégia de execução. Estratégia é escolher a quem servir e que jogo jogar. Executar é outra coisa.
  • A metáfora do barco: sua empresa é um barco com 10 remadores e você no comando. Um drone à frente mostra o rio afunilando (concorrência à frente) e um ramal vazio ao lado (nova estratégia). Para virar o barco você tira um remador da remada, e os outros nove reclamam, porque ficou mais pesado e parece ir contra a correnteza. Estratégia obriga a abrir mão de coisas para conquistar outras. A pergunta difícil é: o que vou parar de fazer para virar o barco?
  • A maior dificuldade de executar são as pessoas certas. Você pode ter a estratégia clara e ainda não ter gente com competência para te levar aonde quer. Por isso metade do tempo do empreendedor deveria ser dedicada a encontrar e desenvolver essas pessoas.
  • Onde achar a resposta: não na internet nem nos livros, mas na realidade, em outra empresa que já resolveu o problema que você não resolveu. Descubra que empresa está indo para onde você quer ir, peça para visitar e converse (por exemplo, com o financeiro dela). Pergunte: "você conhece alguém com boa solução financeira? Tributária?". Vá, visite, pergunte.
  • Dois graus de separação: você está a dois graus de qualquer pessoa no planeta (o exemplo do funcionário que era amigo do Papa e tinha o WhatsApp dele). O problema não é descobrir o nome certo, é saber abordar a pessoa da forma correta para ela querer ajudar. A melhor forma é a honestidade total: "tenho um problema, tive seu nome como referência, você pode me ajudar? Se não puder, pode me indicar alguém que possa?".
  • "O paraíso é coletivo." Ninguém tem sucesso sozinho; só quem tem humildade de pedir ajuda sai do buraco. E as pessoas são solidárias, gostam de ajudar. Quem recebe ajuda depois retribui ajudando outro.

Como aplicar

1. Faça o exercício do funeral esta semana. Escreva o que quer ouvir das pessoas e as duas respostas: o que você quer da vida e qual o papel da sua empresa nela. Guarde num papel visível e revise ao menos uma vez por ano.

2. Responda "a quem eu sirvo". Se você não sabe quem choraria a falta do seu negócio, pare e defina o cliente antes de qualquer outra decisão de campanha, oferta ou preço.

3. Audite sua equação de confiança com cada cliente: sua credibilidade (imagem, currículo, prova), sua disponibilidade (velocidade de resposta), sua intimidade (quanto conhece o cliente por dentro) e sua orientação a si mesmo (preço e vantagem). Suba as três primeiras, zere a última.

4. Cobre o preço justo. Descubra o custo da sua hora, pesquise o mercado e defina a margem. Nem custo, nem abuso.

5. Dedique metade do foco a pessoas. Comece a inserir o time nos rituais aos poucos, elogie em público na frente do cliente e promova quem já consegue ensinar outro.

6. Reserve horas fixas por semana ou mês para estudar e conhecer gente e negócios diferentes, mesmo com a operação cheia.

7. Troque de ambiente para mudar de patamar. Escolha conviver com quem já é o que você quer ser; o contexto muda você mais rápido que a força de vontade.

8. Quando travar, vá à realidade. Ache quem já resolveu o seu problema, peça para visitar e pergunte com honestidade, aproveitando os dois graus de separação.

Erros a evitar

  • Continuar CEO por acaso, no puro instinto, sem estudar estratégia de forma deliberada.
  • Pensar só na empresa e esquecer que você é um ser humano cuja vida é maior que o negócio.
  • Não saber a quem serve e, por isso, não ter estratégia nenhuma (achar que estratégia é tática de campanha).
  • Vender só técnica. Ser excelente tecnicamente e ficar "sozinho no deserto" por não saber se relacionar e vender.
  • Cobrar preço de custo ou fazer de graça, achando que é generosidade. É injusto e destrói a confiança tanto quanto cobrar caro demais.
  • Ir ao limite sozinho e depois contratar tudo de uma vez e sumir. A ruptura brusca quebra a confiança do cliente.
  • Prender o bom técnico na função em vez de promovê-lo a formar os outros.
  • Fugir do desconforto e do aprendizado, virar "rei da cocada" e parar de evoluir enquanto o mercado muda.
  • Perder tempo com política, fantasias e pessimismo de crise em vez de focar na entrega, no cliente e no próprio desenvolvimento.
  • Romantizar o sonho e ignorar a realidade, sem honestidade intelectual sobre as próprias fraquezas.
  • Achar que resolve tudo sozinho. Não pedir ajuda, não visitar quem já resolveu, não usar a rede.
  • Esperar reconhecimento de fora e não dar a si mesmo aquilo que você exige dos outros.
Gravação da palestra